Apresentação

Enquanto classe gramatical, o vocábulo “prelúdio” nada mais é do que um mero substantivo masculino. Para os profissionais da música, o emprego deste termo normalmente faz menção à peça musical que, escrita ou improvisada, introduz composições vocais e instrumentais. No entanto, para os atores de uma companhia de teatro, o referido substantivo pode indicar a prática de um exercício preliminar que antecede um desfecho certo e esperado: a montagem de um novo espetáculo.
 
Este Blog terá, portanto, caro leitor, a importante função de reduzir em algumas linhas a peça isolada que pretende descrever, de maneira livre, tanto os meses que envolvem o processo de criação quanto os ensaios que antecedem a estréia da mais nova montagem da Companhia Funcart de Teatro:
 
À Beira do Precipício
 
O texto é de autoria do diretor e dramaturgo Silvio Ribeiro. A obra foi escrita em 2009; ano de estréia da sua primeira adaptação para o teatro que, posteriormente, cedeu espaço para a produção de um curta-metragem londrinense com a mesma temática.
 
Afonso – que será interpretado pelo ator Donizetti Buganza – é um viúvo fechado para o mundo.
 
Zeca – que será interpretado por mim, Felipe Ferreira – é um garoto de programa que sempre teve o mundo fechado para si.
 
Durante uma noite muito chuvosa, o inesperado encontro entre essas duas personalidades tão diferentes acaba revelando uma característica em comum: a solidão.
 
Atraído como um ímã pelo garoto, Afonso decide se arriscar levando-o para casa em razão do mal tempo. Abrigado da forte chuva que caía do lado de fora, Zeca aproveita o conforto do apartamento para conduzir o advogado a observar a vida sob uma nova perspectiva.
 
Encantado pela essência do michê, Afonso se vê à beira de um precipício, e percebe que saltar poderá ser um mergulho no vazio ou um voo rumo à liberdade.
 
O teatro de gênero é conhecido pelo seu atrevimento em tocar – e abordar – temas corriqueiramente sociais e polêmicos. Esta é a modalidade teatral que encena a realidade dos excluídos, tal como a do michê Zeca, e que expõe para muito além da quarta parede os sentimentos humanos mais profundos e intensos, tal como a imediata afeição de Afonso para com o garoto:
Zeca. Afonso!
Afonso. (em off) Como que atraído por um ímã, voltei e abracei o rapaz, ele respondeu com um abraço forte. Acho que a última vez que recebi um abraço foi no velório da minha esposa.
Dessa forma, as falas de À Beira do Precipício contarão ao público mais do que a história do conturbado encontro entre esses dois personagens; o espetáculo convidará o expectador a olha bem de perto os extremos da intimidade humana, como se o fizesse pelo buraco de uma fina fechadura, e a refletir sobre os fortes sintomas da solidão, da insegurança e da inexplicável saudade das coisas que jamais aconteceram.
 
Imagem da primeira montagem (2009), com o ator Bruno Leite no papel de Zeca
Através de postagens semanais, este Blog virá a todos vocês para disseminar de maneira objetiva – e interativa – cada uma das principais etapas que integrarão o processo de montagem do referido espetáculo, com o intuito de dar texto e forma a este prólogo e de tornar, portanto, cênico o nosso prelúdio.
 
Sejam todos muito bem vindos!
 
Felipe ~

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